Depois de anos parada, a Lady Cila prepara-se para um novo capítulo. Em Faro, uma renovação profunda devolve o mar a este veleiro com história.
O barco
Uma nova vida a bordo
A Lady Cila no estaleiro Nave Pegos, Faro
Em seco no estaleiro Nave Pegos, em Faro, a Lady Cila prepara-se para voltar ao mar. O projeto passa pela revisão do convés, pela reorganização do interior e pela renovação das instalações de bordo.
Neste diário, registamos as decisões e os trabalhos à medida que avançam.
A homenagem
Porque se chama Lady Cila
Antes de ser Lady Cila, este veleiro chamava-se CASCADE. Esse nome pertence à sua história e continuará a fazer parte dela. Mas, ao começar a imaginar a sua recuperação, senti que o barco precisava de um nome que também contasse a história que agora começa.
O Cascade, antes de se chamar Lady Cila
Lady Cila nasceu do nome da minha mãe, Domicília. É uma homenagem simples e profundamente pessoal: uma maneira de levar comigo alguém que ocupa um lugar tão importante na minha vida.
Um barco guarda marcas de quem passou por ele. Guarda viagens, anos parado, trabalhos por fazer e histórias que talvez nunca venhamos a conhecer por inteiro. A Lady Cila traz tudo isso consigo. Não quero apagar o seu passado; quero cuidar dele e dar-lhe continuidade.
Hoje está em seco, no estaleiro Nave Pegos, em Faro, a passar por uma renovação profunda. Cada decisão — do convés ao interior, dos sistemas de bordo aos pequenos acabamentos — aproxima-a do dia em que voltará ao mar. E, quando esse dia chegar, levará no nome mais do que a história de um veleiro. Levará também a minha mãe.
De CASCADE a Lady Cila, há uma mudança de nome e o início de um novo capítulo. Para mim, há sobretudo uma homenagem que poderá navegar.
As origens
História do Lello 34
O Lello 34 nasceu na África do Sul em meados da década de 1960. Foi desenhado por Bryan Lello por volta de 1966 e a maioria dos exemplares terá sido construída por Henry Vink, em Walkerville, junto à barragem de Vaal.
É um veleiro de linhas clássicas: quilha longa, leme à ré e armação sloop de mastro no topo, com uma genoa grande e retranca comprida. Um anúncio publicado em 1968 mostra as suas características de época. Segundo um artigo do SA Yacht Blog, o projeto estaria ligado às ambições da primeira regata Cape to Rio, realizada em 1971.
O mesmo artigo descreve o modelo como robusto e marinheiro, com participação em regatas e travessias nas águas exigentes da costa sul-africana. Os detalhes da história de cada exemplar são menos conhecidos; esta é a história do modelo a que pertence a Lady Cila.
Fonte: Justin Phillips, “Lello 34”, SA Yacht Blog (2016). As características históricas abaixo constam do anúncio de dezembro de 1968 enviado pelo proprietário. São valores do modelo, não medições confirmadas da Lady Cila; as conversões para o sistema métrico são aproximadas.
O Lello 34 à vela — ilustração do modelo. Clique para ampliar.
Ficha histórica do modelo
Comprimento total
10,24 m
Comprimento na linha de água
7,62 m
Boca
2,83 m
Calado
1,75 m
Deslocamento anunciado
≈ 6 500 kg
Lastro anunciado
≈ 3 175 kg
Área vélica
≈ 48,3 m²
Anúncio do Lello 34 publicado no suplemento de South African Yachting, dezembro de 1968. Clique para ampliar.
Planta e perfil históricos do Lello 34. O arranjo interior representado é uma referência do modelo e pode diferir da Lady Cila. Clique para ampliar.
A bordo
Diário da recuperação
Trabalhos realizados por Vitaliy entre 12 de setembro e 20 de outubro de 2026, a partir do seu relatório e dos registos fotográficos.
Escotilha dos depósitos · 20 outubro 2026Inversor/carregador montado · 20 outubro 2026Bomba de porão e mangueira provisória · 20 outubro 2026Preparação da base dos equipamentos · outubro 2026
Vedação da escotilha dos depósitos
A escotilha sobre os depósitos de água e combustível foi retirada e limpa. A junta antiga foi substituída por borracha adesiva, as juntas da madeira foram vedadas com Sikaflex 591 e as zonas levantadas foram novamente fixadas.
Inversor e organização elétrica
O inversor/carregador foi instalado na sua posição. Foram montadas calhas para os cabos, fixada a caixa de fusíveis e preparadas novas passagens para os circuitos de porão e a alimentação de terra. A instalação de 230 V continua por concluir.
Bombas de porão: ligação e testes
A bomba e a boia de nível foram ligadas à caixa de fusíveis. A descarga ficou provisoriamente encaminhada por uma mangueira verde para o exterior; falta definir a saída definitiva e substituir a válvula de retenção. Uma segunda bomba automática foi testada e ficou proposta para instalação.
Preparação da base do quadro
Foi cortada e preparada uma placa de fibra de vidro para receber os equipamentos elétricos, com oito pontos de fixação M8. A caixa de madeira foi reforçada e vedada, e aplicou-se primário nas superfícies preparadas.
Baterias, monitorização e bomba de porão
O espaço das baterias recebeu primário e a caixa foi reinstalada. O controlador MPPT, o shunt e o monitor de bateria foram montados na zona das baterias. A bomba de porão e a boia foram fixadas, com cablagem e ligações preparadas numa caixa de derivação.
Limpeza e segunda camada de primário
Prosseguiu a remoção de tinta solta e a limpeza sob os bancos e na zona de porão do corredor central. Foi aplicada uma segunda camada de primário e ligado o monitor de bateria para acompanhar o carregamento solar.
Cofres protegidos e tomada de terra
Os cofres sob os bancos foram limpos, as juntas de madeira vedadas e as superfícies preparadas receberam primário. A tomada de alimentação de terra foi ligada e fixada. O cofre de popa foi também limpo e o material reorganizado na cabine de proa.
Primeiro carregamento solar
O painel solar foi ligado ao controlador MPPT, então instalado sob a mesa de cartas, e começou a carregar a bateria. Foram instalados cabos solares em proteção de 25 mm e preparada a passagem pelo convés. Também foi encaminhado o cabo de alimentação de terra até à futura zona do quadro.
Ventilação e painel solar
Foi instalado um novo exaustor e montado o painel solar no varandim. Continuaram a limpeza dos cofres, a proteção de uma abertura sobre o enchimento do depósito e a lavagem do depósito de água técnica.
Limpeza interior e proteção das aberturas
Foram retiradas águas acumuladas, limpas zonas da cozinha e do WC e tratados pontos com fungos. O depósito foi esvaziado e limpo, as aberturas de ventilação desobstruídas e preparadas proteções temporárias para janelas e entrada.
Inspeção e primeiros passos
A primeira visita incluiu uma inspeção geral da Lady Cila, a separação da cablagem existente e a definição das prioridades de recuperação: retirar água, reunir o material num local seco e proteger as entradas de água.
Registos
Galeria
Fotografias da Lady Cila em diferentes momentos no estaleiro Nave Pegos. Os registos do cockpit e do convés são de 2019; os trabalhos atuais serão documentados à medida que avançarem.
Cockpit e bancos de madeira · 2019Cockpit visto de estibordo · 2019Convés e escotilhas · 2019A Lady Cila ao anoitecerO casco no estaleiro Nave PegosPerfil da Lady Cila